Sermão de Bossuet para o Iº Domingo da Quaresma, extraído da obra Sermões (pp. 293-302)
Caso não tenha lido a 1ª parte
II. Quando se fala na presença de um juiz, diz-se: “Eu não fiz semelhante coisa” ou então: “Fui surpreendido, fui levado a isso, porque não era esse o meu intento”; “o crime foi mais grave do que eu pensava”. Não nos defendamos assim, irmãos, não procuremos desculpar-nos inutilmente para encobrirmos a nossa ingratidão, que nunca é criminosa demais.
Na presença de um juiz recorremos a evasivas; na presença dum Padre, a principal defesa é confessar simplesmente o erro: “Cometi uma falta, fiz mal, estou arrependido, imploro a vossa bondade e peço perdão pela falta que cometi”. Mas se ninguém ainda obteve de vós esse perdão, para que hei eu de ousar pedir-vo-lo? Se, porém, a vossa bondade dispensou já muitas mercês, vós, que me destes a esperança, concedei-me agora o perdão.
O Profeta representa a Sinagoga como uma criatura desesperada que vai cair nas mãos de estranhos e que, temendo a cólera do marido, já não quer voltar para a sua companhia. Desperavi, nequaquam faciam; adamavi quippe alienos, et post eos ambulabo — “Parto para nunca mais voltar” (Jr 2,25).
Nós nada fazemos, cristãos, em convencer os pecadores de que, se confiarem em Deus, poderão facilmente alcançar o Seu perdão, visto poder-se esperar bom resultado da obra da remissão que depende puramente d’Ele. Mas como o trabalho da conversão é no coração que verdadeiramente se deve operar, eles então sentem o desespero esmagador das almas torturadas e caem num profundo desalento.
É que embora a nossa força seja nula, embora a nossa extrema fraqueza não nos permita dispor de coisa alguma, não há, contudo, coisa de que menos possamos dispor do que de nós mesmos. Estranha enfermidade a da nossa natureza! Não há coisa que mais a deixe subjugar do que a vontade individual; finalmente, não há coisa mais impossível de realizar do que aquela em que manifestamos a nossa vontade, e por isso, é mais fácil o homem obter de Deus o que quer do que procurar consegui-lo por mero desejo. Provemos esta verdade com toda a evidência.
Há dois obstáculos invencíveis, por assim dizer, que não nos deixam o uso livre da nossa vontade: são o temperamento e o hábito. O temperamento adquire o vício por amor, o hábito adquire-o por necessidade.
Nem um nem outro podemos evitar; porque o temperamento algema-nos e lança-nos numa prisão, e o hábito clausura-nos nela e fecha-nos todas as portas para não tentarmos uma fuga: Inclusum se sentit difficultate vitiorum et quasi muro impossibilitatis erecto portisque clausis, qua evadat non invenit.1
De maneira que o miserável pecador, que forceja desesperadamente, mas inutilmente, para sair dessa prisão, entrega-se depois às suas paixões vis e não cuida de as refrear de qualquer modo: Desperantes, semetipsos tradiderunt impudicitiae, in imperationem immunditiae omnis in avaritiam.2
Ora, o que pode desejar um homem, que é tiranizado pelo seu temperamento, é que o convertam, que o regenerem, que façam dele um outro homem. E é isto o que todos os dias nos diz qualquer amigo nosso que se ache encolerizado, quando o increpamos pelos seus repentes, pelos seus impulsos ou pelas suas violências. Responde que é impossível livrar-se da tirania do temperamento que o domina; que às vezes lhe resiste, mas que, com o andar do tempo, se sente impulsionado; que se exigem que ele pratique outras acções, é absolutamente indispensável que façam dele um outro homem.
Mas o que reclama a natureza fraca e impotente, irmãos, é o que a graça lhe oferece para se reconstruir, porque a conversão do pecador não é mais do que um segundo nascimento, e o homem é então regenerado até a sua origem, isto é, é regenerado até ao coração. O coração antigo é destruído para se lhe dar um coração novo. Qui finxit singillatim corda eorum (SI 32, 15). Diz Santo Agostinho que “para formar um coração puro é necessário destruir o coração impuro” — Ut creetur cor mundum, conteratur immundum?3 Mudada a direcção da fonte, necessariamente o regato toma outro curso.
Mas se a graça pode triunfar do temperamento, também triunfará do hábito; porque o hábito não é menos do que um temperamento fortificado. Não há, porém, força que iguale a do espírito que nos impele.
Basta que Deus insufle o Seu espírito num coração endurecido, para que desse coração brotem as lágrimas da penitência: Flabit spiritus ejus, et fluent aquae (SI 147, 18). E se ainda isso não bastar, enviará Deus “um espírito ciclópico, que derrubará violentamente as muralhas”, quasi turbo impellens parietem (Is 25, 4); “que deitará por terra as montanhas” e que desenraizará os cedros do Líbano, spiritus Domini subvertens montes (1Rs 19, 11).
Se corrêsseis para a morte mais impetuosamente do que o Jordão corre para o mar, seríeis logo detidos por Ele na vossa carreira. E embora o vosso corpo jazesse no túmulo num estado de putrefacção, Ele havia de ressuscitar-vos como ressuscitou a Lázaro. Basta para isso que escuteis o Apóstolo, e que não recebais a graça de Deus em vão. Hortamur vos ne in vacuum gratiam Dei recipiatis.
Força é, porém, confessar, irmãos, que poucos efeitos dessa graça se manifestam, porque poucas dessas grandes conversões se veem no mundo que se possa considerar como ressurgimentos; e a causa de um tão grande mal é recebermos com gelado indiferentismo a graça da penitência, deixando enervar todos os nossos sentimentos por escrúpulos deveras reprovados. Há uma penitência covarde e preguiçosa, que nada empreende com esforço; mas dessa, irmãos, nunca devemos esperar as grandes conversões, nem a vitória decisiva sobre os nossos hábitos.
A condição da nossa natureza é ter de trabalhar heroicamente, sujeita a todos os revezes, para a verdadeira conquista do bem.
Assim como o pão que comemos só se pode alcançar com o suor do rosto (Gn 3, 19), assim a penitência, para ser eficaz, tem necessariamente de ser violenta. Ora essa violência provém unicamente, cristãos, do facto de a cólera e de a indignação originarem impulsos violentos que, no dizer de Santo Agostinho, se observam também na penitência, visto que esta “não é mais do que uma santa indignação contra si própria” — Quid est enim penitentia, nisi sua in seipsum iracundia?4
Eis que ouço a voz de um Santo penitente bradar: Afflictus sum et humi-liatus sum nimis; rugiebam a gemitu cordis mei — “Sinto dores incomportáveis; a consciência fustiga-me cruelmente” (SI 37, 9).
E o seu brado plangente não é como o gemido de uma pomba, mas sim semelhante ao rugido de um leão. É o gemedouro pavoroso de um homem irritado contra os seus próprios vícios, intolerante para com a sua languidez, para com a sua covardia, para com a sua fraqueza.
Depois, essa cólera recrudesce, tomando proporções de furor: Turbatus est a furore oculus meus (Sl 6, 7), e ele então revolta-se contra as suas reincidências, contra a lentidão e a covardia que o enervam.
Não procura já envolver-se nas reuniões que o pervertem; buscar a sombra e a solidão que o regeneram. É, como diria o Profeta, semelhante às aves que, escondendo-se da luz, procuram as trevas, “semelhante ao mocho que, muito obscuramente, vive dentro do seu ninho” — Factus sum sicat nycticorax in domicilio (SI 6, 7). Nessa solidão, nesse recolhimento, é que ele se indigna contra si próprio, e freme de cólera, e forceja herculanescamente por adquirir hábitos contrários aos que tem, “a fim de que o costume de pecar”, como diz Santo Agostinho, “ceda à violência da penitência” — Ut violentiae paenitendi cedat consuetudo peccandi.5 E assim se consegue, irmãos, triunfar do temperamento e do hábito.
E se me preguntardes por que é necessária tanta violência para conseguir tal fim, facilmente vos respondo que a conversão do pecador é como que um ressurgimento, e que a perversidade da nossa natureza só se pode expulsar no meio de sofrimentos cruéis: In dolore paries filios tuos (Gn 3, 16).
Por isso a penitência é laboriosa; tem gemidos e dolorosos trabalhos, porque é um verdadeiro parto: Ibi dolores ut parturientis, diz Santo Agostinho, dolores paenitentis.6
É preciso criar um novo homem? Também é necessário que o primeiro padeça. Mas no meio de tantas dores e de tantas angústias, lembrai-vos sempre destas palavras do Evangelho: “A mulher, na ocasião do parto, sofre extraordinariamente; mas depois do parto já se não lembra das dores que sofreu, tal a alegria que lhe invade o coração, por ter dado um filho à luz”.7
Assim vós, irmãos, no meio dos trabalhos da penitência também dais à luz, mas o que dais à luz é o vosso próprio eu. Se é verdadeiramente aprazível ter dado a luz e a vida a alguém, que de repente se vê limpo de todos os males passados, que maior prazer não será darmos à luz e havermo-nos gerado a nós próprios, insuflando-nos uma vida imortal? Dai, pois, à luz, ó pecadores, e não temais as dores de um parto tão salutar. Perpetuai, não a vossa raça, mas a vossa própria entidade; conservai, não o vosso nome, mas a própria essência da vossa substância.
Virgens de Jesus Cristo, tal é o parto que Deus vos ordena. Dai à luz o espírito da salvação; regenerai-vos em Nosso Senhor no meio das angústias da penitência; continuai a mostrar aos pecadores que é possível vencer a natureza nas suas mais fortes inclinações; e para os convencerdes por meio do vosso exemplo, declarai ao vício uma guerra sagrada, mas especialmente ao vício mais oculto, mais íntimo, e que se eleva sobre as ruínas de todos os outros.
E nós, cristãos, palpemos uma vez só as nossas chagas inveteradas, mas sem vacilar, mas sem dizer que não podemos tocar-lhes ou que nos é impossível tal violência; pois bem melhor é sofrer uma violência neste mundo do que no outro. Ambulate dum lucem habetis — “Andai enquanto tendes luz”8, e não abuseis do tempo que Deus vos concede. É por aqui que vou terminar este discurso.
III. Deus, que não quer a morte dos pecadores, porque deseja antes que eles se convertam, não Se satisfaz com excitá-los pela boca dos pregadores, pois anima, por assim dizer, toda a natureza a convidá-los a penitência. Essa série contínua de dias e anos que eles tantas vezes veem repetir-se, é como que uma voz pública de todo o universo a testemunhar a paciência de Deus e a avisar os pecadores de que não abusem do tempo que Ele lhes dá.
Ignorais — diz o Apóstolo — que a misericórdia divina vos encaminha à conversão? Ou desprezais as riquezas da sua paciência e da sua benignidade (Rm 2, 4), que vos encaminha ao arrependimento?
Eis a principal graça que o Apóstolo vos aconselha a que não deixeis infrutífera. E logo depois acrescenta: “Escutei-vos no tempo marcado” — Tempore accepto (2Cor 6, 2).
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